Cuidado com o ciclista

Cuidado com o ciclista

Venho na paleta pela rua das Vertentes. Chego ao cruzamento com a rua do Tanque Velho e aguardo o sinal. Quando abre, pego a faixa de pedestre. Os carros param, mas, eis que chega uma bicicleta. O ciclista todo paramentado com capacete, joelheira e outros badulaques. Se não estanco, ele me atropela em cima da faixa, a meio caminho entre um lado da rua e outro. Não digo nada, apenas mando-lhe o olhar de censura.  Equilibrando-se nas duas rodas, ele vai pra esquerda, com jeito de quem vai passar por trás de mim, mas para abruptamente. Não foi por mim, nem pelo sinal vermelho. É que vinha carro nos dois sentidos das Vertentes. Filho duma égua. Depois leva uma por aí, de um motorista da mesma laia, e sai reclamando “os direitos“ de quem circula de bicicleta.

Ninguém fiscaliza, nem autua. Então, pode.

Passo pela Avenida Jaçanã, nesta quinta-feira, dia 4. Nas imediações da agência do Banco do Brasil, vejo, pela terceira vez em dois meses, um carro-forte da mesma empresa manobrando bem em cima de uma curva. Paro e fico assuntando o que pode acontecer. Felizmente o sujeito do Fiesta vermelho vê a tempo e reage usando a buzina para xingar o irresponsável. A coisa não para aí. O motorista do bruto roda alguns metros, sobe duas rodas na calçada e estaciona em frente ao banco. Quer dizer, em frente à rampa de acesso aos deficientes, ao espaço para motos – e um pedaço da traseira dificulta a entrada na vaga para idosos. Olho no relógio: 9h6. E também percebo que na rua lateral – a agência fica na esquina com a rua Capitão Nascimento – há um portão de acesso a veículos de serviço como o carro-forte.

Às 9h10 o caminhão de transporte de valores tem companhia. Um Fiat Uno cor de burro quando foge – pode ser azul escuro, roxo ou cinza, tudo foveiro – estaciona atrás, ocupa o pouco que sobra para acesso à vaga do idoso e atrapalha a saída do carro ao lado. Fico de olho na cena, esperando a chegada de quem precisa da vaga e a reação de quem deseja sair.

Tic, tac; tic, tac. Às 9h16 aparece na curva um Honda Fit cinza, o motorista encosta devagar, põe duas rodas na calçada, cola na traseira do Uno, e fecha quem está na outra vaga. Vai feder, imagino. Bem vestido, ele desce e segue em direção à porta do caixa eletrônico.

Quando passam 15 segundos das 9h19, o cara do Honda sai do banco, entra no carro, liga o motor. Dá uma rezinha e, sem sinalizar, desce da calçada e joga toda a direção para a esquerda, subindo no meio fio do outro lado, engata a ré, completa a manobra e segue em direção à avenida Paulo Lincoln do Valle Pontin. Nem se toca ante a buzina de protesto do chofer do caminhão baú que surge na curva e quase o abalroa. O sinal fecha, o veículo de carga para ao lado do carro-forte e ocupa o que restou de espaço na rua. Ou seja, na pista contrária.

Tic, tac,  tic, tac… São 9h22. O motorista do Uno que havia chegado às 9h10 sai do banco e vem em direção ao seu automóvel. Tem jeito de pedreiro, serralheiro, eletricista. No popular, um peão de obra. Exatos dez minutos depois, uma picape Palio branca estaciona no mesmo lugar. Rápido na operação bancária, seu motorista retorna quatro minutos depois. Como se houvesse combinado, o motorista de uma Blazer preta de empresa de segurança patrimonial aproveita o espaço e sobe, estacionando na vaga para idoso. Mas quem deixa o volante é uma cara de, no máximo, 40 anos. Deixa o local cerca de três minutos depois..

Olho pro relógio e vejo que são 9h37. Esboço o pensamento de sair dali, pois a coisa está naquela monotonia de tão repetitiva. Quando volto os olhos pro lugar, só dá pra ver a traseira do carro-forte sumir na esquina.

Ia esquecendo: entrei na academia de ginástica para tentar fotografar do alto a cena dos três veículos fechando o estacionamento do banco. Só descubro a barbeiragem quando peço a Taygoara que busque as imagens no celular: acionei o botão errado e nenhuma das quatro clicaqens passou da intenção. Por isso, utilizo a foto de um veículo do mesmo modelo e marca, mas de outra cor.

TRANSITÓRIAS XV – Ironia das placas

Como previsto para esta quarta-feira, pulo da cama bem cedo. Saio naquele frio danado e dou uma carona a Cida que vai para a academia. Ao passar pelo início da Av. Stamatis, comento a postagem de ontem e, olhando para o poste da rua Ludovico Zanol, noto que a placa de sinalização de trânsito ali afixada está dobrada. Ou seja, a informação sobre o sentido de circulação da via está escondida. Ontem não estava. Passei por ali “de a pés” como diria uma faxineira conhecida, e vi que a placa estava inteira e visível, com aquela enorme seta. Vingança de quem entrou na contramão?

Enquanto falo sobre isso com minha acompanhante, noto que à frente segue uma Kombi picape. Joia rara, com o motor trabalhando redondo, a lataria impecável e caçamba de madeira. Observo um detalhe na placa: começa com as letras CKH. Não demora e chegamos ao semáforo do cruzamento com a rua Benjamin Pereira, quando o motorista leva o veículo a ocupar duas faixas. O retrovisor mostra que fala ao celular. O sinal abre e fecha e não posso passar. Fico com raiva, mas não buzino. Quando a sinaleira volta a abrir, a Kombi vira à direita, certamente em direção à praça Comandante Alberto de Souza, onde fazem ponto veículos de carreto. Pego o lado contrário, para entrar na Airton Laroca e alcançar a Avenida Jaçanã. Cida não entende o meu sorriso e explico a mensagem que o motorista da Kombi mandou com as três letras da placa. E ela: “Só você para acordar cedo, manter o bom humor e encontrar na agressão dos outros motivos para rir”. Aí apelo: “O mal educado é o outro. Então, como está lá na placa, ele que vá CKH”.

TRANSITÓRIAS XIV

Lei de trânsito é pros fracos

Ainda na terça-feira, dia 2 de julho. Ali pelas 15h40. Quase no encontro da rua Ludovico Zanol com a Av. Luis Stamatis, em Jaçanã. Um táxi de cooperativa vem da Stamatis e entra à esquerda, apesar daquela placa com uma seta na horizontal, indicando sentido de circulação da via e gritando que a rua é de mão única. Indiferente à informação, pisca o farol para outro carro, também táxi, que, sem opção, recua, obrigando o que estava atrás a também engatar a ré. O outro justifica o que não tinha conserto com um “obrigado por quebrar essa, meu!” Essa “quebradinha” significou rodar uns 35m a 40m na contramão. De “quebra essa” em “quebra essa”, vai ficando mais e mais mal acostumado até que chega numa avenida ou estrada, dá uma “roubadinha” e… Crash! Está consumado o acidente cabeludo.

TRANSITÓRIAS XIII

Rapidez na entrega?

Terça-feira, dia 2 de julho, 10h30.  Saindo da rua Carlos Rodrigues para virar à direita na rua Francisco Alves Bezerra, no Parque Edu Chaves, noto a vinda de um furgão amarelo, em alta velocidade, numa via de trânsito local, onde o máximo aceitável é 30 km/h. A distância é boa, mas a cautela sugere uma marcha à ré. Acerto. O bichão passa “a milhão”, como se diz por aqui. É um carro a serviço do Sedex. Uma das portas traseiras está aberta e vai lá e cá, com risco de derramar a carga e provocar acidente. Sigo a distância cautelar, buzinando para alertar o motorista. Ele não ouve e no segundo quarteirão, entra à direita na Avenida Sanatório, sem uma paradinha de respeito à preferencial. Uns 30 metros adiante cai um grande saco cinza, certamente de correspondência. Funcionários de uma auto-elétrica gritam tentando avisar o pintacuda e recolhem o saco, deixando-o na calçada. Quem sabe ele se toque e retorne. Desisto de ir atrás, nem pretendo esperar pra ver no que vai dar. Viro à esquerda com um pensamento: eis aí uma possível explicação para o extravio de encomendas.

 

TRANSITÓRIAS XII

De maus e bons exemplos

No estacionamento de um posto de emergência ambulatorial, um senhor resmunga: “Coisa ruim todo mundo aprende e imita facilmente. É por isso que o mundo está desse jeito…” Nem tenho tempo de saber ao que ele se refere, mas venho o caminho todo pensando no que ouvira. E sem concordar. Entro na rua onde moramos e vejo, na porta de nossa casa, Vanderlei, o catador de material reciclável. Aí, lembro que já faz um tempão que nos conhecemos.

Nos anos 80, com os filhos ainda criancinhas, todo sábado pego o Hermes (nosso Fusca) para um passeio diferente.  Desta vez não vamos ao Lago dos Patos ou ao parque nas Palmas do Tremembé. Ponho no carro o material reciclável que junto ao longo da semana e sigo até o bairro de Vila Nilo entregá-lo ao velho Charutinho, que vende tudo no depósito e consegue uns trocados. Conheço o velho ao visitar um colega de trabalho que mora nas vizinhanças. E ele se torna querido, principalmente das crianças. É Charutinho pra lá, Charutinho pra cá… Também, não tira o toco do charuto da boca.

O tempo passa. Quando Luiza Erundina assume a prefeitura, estimula o trabalho comunitário numa invasão de Jaçanã. No pedaço, graças aos mutirões supervisionados por engenheiros e técnicos, brotam ruas calçadas, sobradinhos e conjuntos de apartamentos num recanto batizado Jardim Filhos da Terra. Descobrimos que Charutinho e a esposa participam da empreitada, juntamente com uma filha, e constroem um canto decente para morar. A mulher passa a fazer doces, que vende em casa e Charutinho, já cansado e muito velho, deixa a atividade de catador. É um tempo em que a municipalidade estimula a estruturação de cooperativas de coleta de recicláveis. Descobrimos que existe um na região e passamos a levar o material para lá. Erundina não se reelege e, com o tempo, o projeto das cooperativas com o apoio da prefeitura vai para o espaço.

Nesse tempo, noto a presença de uma figura que circula perto de casa puxando um carrinho e catando papel e latinhas. Pergunto seu nome, digo o meu e sugiro que passe lá em casa para pegar o material que guardamos. A partir daí, toda segunda, quarta e sexta-feira, ele aparece.  Conosco não é necessário futucar o saco do lixo na porta, o trabalho de separação a gente faz antes.

Acostumados com o amigo anterior, os meninos ouvem a campainha e avisam: “Pai, Charutinho II está no portão!”.  Explico umas duas vezes que o nome dele é Vanderlei e logo aprendem. O catador continua inspecionando sacos de lixo em outras portas. Na nossa, isso não é necessário.

Um dia, ele reclama de dores nas pernas e fala que o médico do posto de saúde disse que era consequência da carência de potássio no organismo. Providencio umas bananas e daí para cá, junto com os recicláveis, ele ganha algumas dessas frutas que os índios chamam pacova, os espanhóis, plátano, e no meio científico é “musa paradisíaca.” Uma coisa é certa, como informou o próprio Vanderlei, “desde então, não sinto mais dor nas pernas”.

Não era sobre isso que vinha pensando ao ver o catador de reciclável. Mas, na conversa de bons e maus exemplos daquele velhinho do estacionamento. Do primeiro contato para cá, muita coisa mudou na vida de Vanderlei. Em nossa rua ele praticamente não precisa mais abrir sacos de lixo. Noto que, com o decorrer do tempo, as pessoas vão, aos poucos, baixando a guarda e hoje o chamam no portão para entregar sacos ou sacolas contendo material reciclável. Um oferece café, outro um pãozinho com manteiga… Ou seja, de tanto vê-lo em nossa porta e sendo bem recebido, passam a fazer o mesmo. O que significa que gestos de respeito, atitudes de solidariedade, tudo isso é notado pelos demais e, sem que percebam, repetidos a ponto de virar parte da normalidade no meio.

Minha filha mora em outro bairro, mas mantém os laços afetivos e de solidariedade com ele. Pelo menos uma vez por semana traz material reciclável de sua casa. Se o período é muito chuvoso, indicativo de dificuldades para os catadores, traz também uma cesta básica.

A moça que vem periodicamente fazer faxina ainda não entende esse proceder. A gente conversa e orienta no sentido de que caixas de leite e garrafas não podem ser guardadas sujas. Devem ser lavadas antes.  E que papel sujo é lixo. “Mas, não vai ser dado ao catador…” Por isso mesmo, completamos, antes dela concluir a frase. O mesmo é assinalado sobre roupas e calçados usados. Está furado ou rasgado, é lixo. Só guardamos pro catador o que tem condições de ser decentemente usado. Ela parece ainda não ter entendido, mas, certamente, vai aprendendo.  Como muitos dos vizinhos. Nós também aprendemos com eles. E reciclamos nossos conhecimentos. Na contramão daquilo que dizia o velhinho lá do começo deste texto.

O leitor certamente indagará: o que isso tem a ver com carro ou trânsito? Tudo, pois na próxima postagem o tema será cinto de segurança. E o que aconteceu em relação ao acessório foi muito parecido.

Transitórias VII

Passamos à tarde ao longo da Ciclofaixa Dumont Villares/Ataliba Leonel/Santos Dumont, na Zona Norte de São Paulo. Havia mais prestadores de serviços da Prefeitura do que usuários daquela área de lazer nas proximidades do Parque da Juventude. Um desperdício que já observamos em outras ocasiões.
Não entendemos porque se investiu tanto nessas ciclofaixas domingueiras, em detrimento de ciclovias permanentes na região. Ali pertinho, ao longo de um bom pedaço da Brás Leme, a ciclovia atrai mais gente. Claro, é muito mais segura, pois não disputa espaço com os carros, nem com os pedestres. Essa tal de ciclofaixa está mais para ciclomarketing. Outro dos legados de Kassab. Com riscos aos ciclistas de fim de semana. E aos motoristas que passam rente.